DITADURA MILITAR

BRASÍLIA — A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos ouvirá as famílias de Juscelino Kubitschek e do motorista Geraldo Ribeiro antes de decidir pela reabertura da investigação sobre a morte do ex-presidente em um acidente automobilístico em 1976.

O pedido para reabrir o inquérito foi protocolado após a reinstalação da comissão pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e partiu de Gilberto Natalini, que presidiu a Comissão da Verdade de São Paulo. A versão sobre a morte de Kubitschek em acidente é questionada em inquérito civil do Ministério Público Federal (MPF), que indica suspeita de atentado político durante a Ditadura Militar.

Na reunião de sexta-feira (14), a relatora Maria Cecília Adão solicitou a inclusão, no procedimento de investigação, do motorista Geraldo Ribeiro como possível vítima do atentado. A comissão também designou Rafaello Abritta, representante do Ministério da Defesa, como segundo relator diante da complexidade jurídica do tema.

A próxima etapa será ouvir as famílias do motorista e de JK para decidir se a investigação será reaberta. A Comissão de Mortos e Desaparecidos também pretende se reunir para votar a admissibilidade do pedido de investigação.

Morte de Juscelino Kubitscheck

A morte de Juscelino Kubitschek é cercada por versões e especulações. Uma delas é de que os militares mataram JK e o motorista que dirigia o Opala envolvido no acidente na Via Dutra. A versão oficial da Ditadura Militar diz que Kubitschek e o motorista morreram a bordo do Opala em 22 de agosto de 1976, na rodovia Presidente Dutra, entre São Paulo e Rio de Janeiro.

A perícia indicou que o Opala foi atingida por um ônibus e invadiu a contramão colidindo, em seguida, com um caminhão carregado com trinta toneladas de gesso. O governo militar encerrou a investigação apontando que o acidente aconteceu quando o ônibus tentou ultrapassar o carro do ex-presidente.

A versão oficial sobre a morte de JK foi contestada pela família do ex-presidente, que chegou a pedir a exumação do corpo 20 anos depois. Em 1996, o caso foi reaberto e o corpo do motorista foi exumado, mas as conclusões da nova perícia foram as mesmas da primeira investigação.

Havia a suspeita de que o motorista do carro teria levado um tiro na cabeça, mas a perícia constatou que o objeto metálico encontrado em seu crânio era um prego do caixão. 

No entanto, novos elementos para dúvidas surgiram poucos anos depois. Confira:

Em 2013, o motorista do ônibus narrou à Comissão Municipal da Verdade de São Paulo que dois homens ofereceram dinheiro para que ele assumisse a culpa pelo acidente com JK.

Para a Comissão e outros grupos de trabalho de universidades, JK pode ter sido vítima de um atentado político, por meio de envenenamento, sabotagem ou tiro. Um inquérito civil foi aberto e finalizado inconcluso.

Em 2021, o Ministério Público Federal (MPF) tirou o sigilo do inquérito civil aberto em 2013, que apontou que, diferentemente do que o governo militar alegava, o acidente não foi causado pelo motorista do ônibus.

O documento se baseou num laudo produzido pelo engenheiro e perito especialista em transportes Sergio Ejzenberg.

Ele analisou laudos feitos em 1976 e 1996 pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli, que embasaram a tese oficial do choque, primeiro, do ônibus no Opala. O novo estudo demorou três anos para ser elaborado.

O documento rejeitou a ideia de que o desastre tenha sido causado por uma colisão do Opala com um ônibus.

“O ônibus da Viação Cometa placas HX-2630/SP prefixo 3148 não estava trafegando com excesso de velocidade, e não teve qualquer participação causal nos fatos”, diz o laudo.

Ainda segundo o documento, o caminhão desviou para a direita e reduziu a velocidade, enquanto o automóvel, mais ágil, “nem ante a iminência da colisão frontal frenou emergencialmente”.

Mas o laudo considerou ser “impossível afirmar ou descartar” a hipótese de atentado, já que “não há elementos materiais suficientes para apontar a causa do acidente ou que expliquem a perda do controle do automóvel”.

Já a hipótese de sabotagem não pôde ser confirmada, porque o Opala foi desmantelado, “enquanto estava guardado no pátio da Delegacia de Polícia de Resende-RJ” na época do acidente.

Além da comissão municipal de São Paulo, as Comissões Estaduais da Verdade de São Paulo e de Minas Gerais também apontaram que JK foi vítima de um atentado político. Os colegiados reuniram indícios de que não houve batida com o ônibus e apontaram que o carro perdeu o controle por causa de uma ação externa, que poderia ser uma sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista.

Em 2024, o ex-vereador de São Paulo Gilberto Natalini, que presidiu a Comissão Municipal da Verdade, pediu ao Ministérios dos Direitos Humanos a reabertura da investigação sobre o caso. Como argumentos, Natalini usou o laudo do perito e a conclusão do inquérito do MPF de que não era possível comprovar o que causou o acidente que vitimou JK.