Plan B, Saulo Wolf N’ The Gang e Tio Capone têm estilos bem diferentes, indo do rock mais pop ao heavy metal. Na defesa do estilo desenvolvido na década de 1950 para fazer “dançar e balançar”, a linguagem é a mesma: o circuito de bandas autorais precisa ser estimulado para que Belo Horizonte não vire uma cidade só de covers de medalhões.


“O rolê autoral é muito difícil. Quando temos acesso às casas de shows, elas nos forçam a tocar cover”, registra Tio Capone, criador e vocalista da banda homônima, uma das concorrentes do Circuito do Rock, que será realizado de quarta a sexta, em disputa virtual, com a promoção da Secretaria Municipal de Cultura.

Para chegar ao “grand finale”, os grupos participaram de seletivas em três centros culturais de Belo Horizonte: Lindéia, Regina, no Barreiro, Venda Nova e Pampulha. Cada uma irá defender uma música autoral, em vídeos já gravados e disponibilizados em canal próprio no YouTube para votação do público. Vencerá quem tiver o maior número de likes.


Os três grupos vivem a expectativa de gravar um videoclipe profissional, prêmio principal do Circuito, o que servirá de cartão de apresentação para se ampliar o repertório autoral na negociação com as casas de shows. “Representará a possibilidade de ganhar maior visibilidade e nos dar mais segurança”, assinala a vocalista do Plan B, Daiana B.

“Infelizmente, o rock autoral não tem voz. As (bandas) que tentam acabam tendo as portas fechadas”, salienta Daiana. Para sobreviver, ressalta, é preciso ter no repertório músicas de artistas renomadas. A maior parte opta por fazer cover de estilos que se aproximam ao da banda. No caso da Plan B, os eleitos foram The Cranberries e Pitty.

Saulo Wolf registra que uma vantagem de fazer cover é ficar mais conhecido no circuito. “Quando você aparece com algo autoral, as pessoas vão se lembrar de que já fez cover de tal grupo”, afirma. 
Desde 2001 na estrada, ele esteve à frente de vários “tributos”. Atualmente tem se voltado para o Whitesnike, banda de hard rock britânica.


A formação do Snakebite é praticamente a mesma do Saulo Wolf N’ The Gang. Esta última foi criada há dois anos, justamente no período que coincide com a manifestação da pandemia de Covid. Por causa dela, o trabalho de divulgação e os shows ficaram prejudicados. Ele chegou a lançar um primeiro single, no formato de balada, intitulado “Dream Again”.


O primeiro lugar na competição será premiado com um videoclipe profissional da música vencedora, que terá roteiro, direção e gravação feitos pela Babilonya Filmes. A gravação do videoclipe inclui todo equipamento, estrutura audiovisual, direção de arte e equipe necessária. O segundo lugar receberá cachê no valor de R$ 3,5 mil, enquanto o terceiro levará para casa R$2 mil.. 


Músicas abordam estilos de cabelo, paixão e serial killer


Na composição de “Meu Cabelo é Bom”, Tio Capone (nome artístico de Junio Martins, criador e vocalista da banda) valeu-se de algumas experiências traumáticas na escola, quando o estilo black power era tachado de “cabelo ruim” e “feio” por colegas.


“Sempre tinha uma piadinha para humilhar a gente. Os anos se passaram e eu vi episódio semelhante acontecer com uma aluna minha, que trabalhava numa empresa de call center. A supervisora havia pedido para ela alisar o cabelo”, registra Capone.


Ele incentivou a aluna a bater o pé e defender o estilo afro. “Não cortou e ninguém na empresa falou nada, até porque viram o quão racistas estavam sendo”, assinala Capone, que está à frente de uma escola de música e de uma ONG dedicada a projetos sociais.


“Compus uma música que, ao contrário de mostrar a dor que a gente sente (em situações de racismo), exalta os tipos de penteados do estilo afro, citando grandes nomes da música mundial, como Elza Soares e Bob Marley”, registra.


Com influências de funk de periferia, rap e “um bocado de distorção do rock”, a música do Tio Capone tem uma característica mais alegre, que remete a Mamonas Assassinas e Raimundos. “Quando era adolescente e morava na favela, escutava de tudo. Mas tinha um olhar carinhoso para a alegria e rebeldia do rock”, lembra.


já o Plan B apresenta “Eu Sei”, uma música para “jogar o astral para cima”, num rock de pegada pop e dançante. “Ela fala de um casal que está muito feliz e não consegue ver o lado escuro (da relação) que está por vir”, explica Daiana B, namorada do guitarrista e compositor Magno Maciel.


Com dez músicas autorais prontas, o grupo escolheu a que teve o melhor feedback do público.“Já apresentamos a canção algumas vezes e tivemos uma resposta muito positiva. Sentimos que conseguimos passar uma mensagem de autoconfiança”, destaca a vocalista.


Saulo Wolf N’ The Gang entrará em cena com “Powerkill”, canção em inglês composta em 2001 por Saulo e Hudson Lucena. “Ela pertence ao primeiro projeto de heavy metal que eu tive. A letra tenta mostrar o que se passa na cabeça de um serial killer”, explica o band leader.