Há nove anos, moradores do distrito de Pires, na divisa de Ouro Preto e Congonhas, na Região Central do estado, já relatavam medo de um possível desastre envolvendo estruturas de mineração. A preocupação voltou à tonaneste domingo (25/1), quando a mina de Fábrica, da Vale, provocou uma inundação de lama que atingiu o escritório da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), além de três oficinas e o almoxarifado, segundo relatos de moradores e funcionários da empresa.

Apesar de não haver registro de residências atingidas, a água chegou a cerca de 1,5 metro de altura, interrompeu a captação de água e paralisou as operações no local. Aproximadamente 200 trabalhadores foram evacuados.

A Defesa Civil de Minas Gerais confirmou o acionamento e o deslocamento de equipes para vistoria técnica.

Funcionários da empresa iniciaram a limpeza da área, enquanto aguardam a fiscalização ambiental para avaliação dos danos.

Em 2017, a reportagem do Estado de Minas esteve na região e ouviu moradores que já expressavam preocupação com o complexo de estruturas minerárias, localizado a cerca de 350 metros de comunidades locais. Famílias que viviam nas áreas mais baixas do povoado do Mota, em Ouro Preto, e no Bairro Pires, em Congonhas, haviam sido removidas em 2008, depois do rompimento da Barragem Auxiliar de Vigia, que provocou vazamento de água e rejeitos e deixou prejuízos e insegurança na região.

Na época, a dona de casa Nilza Maria de Jesus, moradora do Mota, afirmou que temia principalmente por quem permaneceu nas áreas próximas às barragens. “Antigamente, se tivesse um rompimento, a gente não era atingido. Agora, com a ampliação das estruturas, nossas casas e famílias podem ser soterradas”, disse.

Posicionamento da Vale na íntegra

"A Vale esclarece que, na madrugada deste domingo (25), houve extravasamento de água com sedimentos de uma cava da mina de Fábrica, em Ouro Preto (MG). O fluxo alcançou algumas áreas de uma empresa. Pessoas e a comunidade da região não foram afetadas. Como é praxe nessas situações, a Vale já comunicou os órgãos competentes e prioriza a proteção das pessoas, comunidades e meio ambiente. As causas do extravasamento de água estão sendo apuradas.

A Vale reforça que o ocorrido não tem qualquer relação com as barragens da empresa na região, que seguem sem alterações nas suas condições de estabilidade e segurança e monitoradas 24 horas por dia, 7 dias por semana".

Confira a nota da CSN

“Na madrugada de hoje (25/1), houve uma ocorrência em uma cava pertencente à Mineradora Vale, o que provocou o alagamento de áreas na unidade Pires, em Ouro Preto, de propriedade da CSN Mineração, incluindo o Almoxarifado, acessos internos, oficinas mecânicas, área de embarque entre outras áreas e atividades. Importante ressaltar que todas as estruturas de contenção de sedimentos da CSN Mineração estão operando normalmente.

A CSN Mineração informa que, desde o primeiro momento, acompanha a situação de forma permanente e que as autoridades competentes já foram comunicadas”

Acidentes com barragens

2001

São Sebastião das Águas Claras, no distrito de Nova Lima

» Barragem da Mineração Rio Verde se rompe matando cinco operários. O Córrego Taquaras foi atingido e assoreado bem como acessos, mata e residências da comunidade

2003

Cataguases, na Zona da Mata

» Barragem da Cataguases de Papel Ltda se rompe, despejando no Rio Pomba cerca de 1,4 bilhão de litros de lixívia (licor negro), um subproduto da produção de celulose.

Ao todo, 600 mil pessoas ficaram sem água em três estados

2007

Miraí, na Zona da Mata

» Barragem da Mineradora Rio Pomba Cataguases se rompe, atingindo bairros de Miraí e Muriaé. Cerca de 4 mil pessoas foram desalojadas

2008

Ouro Preto e Congonhas, na Região Central

» Barragem Auxiliar de Vigia tem rompimento e atinge cerca de 40 residências de Ouro Preto e Congonhas

2014

Itabirito, Região Central

» Barragem da Herculano Mineração se rompe e mata quatro operários que faziam manutenção numa barragem desativada

2015

Mariana, Região Central

» Barragem do Fundão, operada pela Samarco, se rompe matando 19 pessoas e despejando quase 40 milhões de m³ de rejeitos na Bacia Hidrográfica do Rio Doce e no mar, sendo considerado na época o maior desastre socioambiental do Brasil.

2019

Brumadinho, Região Metropolitana

»Barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale rompeu e liberou 12 a 13 milhões de m³  de rejeitos de minério. A avalanche de lama soterrou áreas administrativas e residenciais, resultando em 272 mortes oficiais, configurando uma das maiores tragédias humanitárias e ambientais do país.