MANIFESTAÇÃO

Trabalhadores que realizam entregas em plataformas de delivery realizaram uma motociata no Centro de Belo Horizonte na tarde desta sexta-feira (01). A mobilização complementa a manifestação iniciada, durante a manhã, para cobrar reajuste nas taxas pagas por empresas como iFood, 99 e Rappi. Os motoboys também pedem condições melhores de trabalho. 

A concentração ocorreu na avenida dos Andradas, nas imediações da Praça da Estação. De lá, os entregadores saíram em direção à Câmara Municipal de BH e aos shoppings Boulevard, Pátio, Diamond, Cidade e Praça da Savassi com o término da motociata na Praça Sete. O protesto foi acompanhado por equipes da Polícia Militar e não houve interdições de trânsito, com as motos ocupando apenas uma faixa das avenidas em que há mobilização.

Além do buzinaço promovido, os entregadores também carregam cartazes e faixas com dizeres pedindo tarifa mínima por corrida de R$10, fim do agendamento das jornadas de trabalho no iFood e suspensão de entregas duplas recebendo apenas uma taxa. Nas bags em que geralmente os produtos são armazenados durante a entrega foram afixados comunicados alertando que o manifesto vai se estender até domingo, 3 de abril. 

Na moto de um dos participantes do movimento havia um recado aos entregadores que não aderiram ao movimento: “Bloqueio do iFood BH/MG. Ninguém coleta, ninguém entrega. Por favor não tente ultrapassar as barreiras que serão montadas pelos motoboys nas entradas dos estabelecimentos. A melhoria não é só para 1. A melhoria é para toda classe de motoboys”. 


Na manhã desta sexta-feira, a reportagem de OTempo recebeu vídeos que mostram alguns entregadores enfileirados na porta de restaurantes na Savassi e na entrada do shopping Cidade. Em algumas imagens foi possível notar que os motoboys que não aderiram ao manifesto foram proibidos de retirar encomendas e tiveram os pedidos tomados à força. 

O presidente da Associação dos Prestadores de Serviço que Utilizam Plataformas Web e Aplicativos de Economia Compartilhada (Appec), Warley Leite, condenou atos destas características. “Repudiamos todo tipo de ato que seja feito a força, com uso de força. Infelizmente, não temos como fazer nada em relação a esses atos em que pessoas tem se usado de força para coibir outras. Repudiamos isso totalmente”.  

Leite ainda diz que o alto custo com combustíveis e a baixa remuneração podem levar ao fim do serviço. "A gente já teve um reajuste de mais de 150% dos combustíveis e preços das tarifas a cada dia que passa, diminui. E para que isso não aconteça a solução que a Appec vê é a construção de um aplicativo, sem taxas, tanto ao motorista de aplicativo e motoentregador", cita. 

Impactos 


Conforme a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o protesto impactou na operação de delivery dos estabelecimentos da capital. Nas redes sociais, inclusive, internautas relataram dificuldades para concretizar um pedido ou demora para receber mercadorias.

Matheus Daniel, presidente da Abrasel, afirma que apesar do reflexo, o manifesto é legítimo. "A taxa de entrega precisa ter um valor justo por ele estar se arriscando, na chuva, trabalhando para oferecer comodidade aos clientes. O cliente que pede delivery não quer sair de casa, então tem que pagar por essa comodidade. Não existe entrega grátis", diz. 

O representante do setor, no entanto, criticou os grupos que fecharam portas de restaurantes e impedindo outros motoboys de trabalhar. "Eles têm que saber que o abr e restaurante é tão explorado quanto os trabalhadores. A gente chega a pagar taxa para os aplicativos em torno de 27%. Até por isso a gente recomenda aos clientes que comprem direto nos restaurantes em vez de utilizar aplicativos", acrescenta. 

Retornos


Em nota, o iFood afirmou que respeita a manifestação e mantém diálogo com os entregadores. A empresa ainda ressaltou que já adotou medidas em favor dos entregadores.

"Neste ano, por exemplo, foi anunciado em março um reajuste (o terceiro em 12 meses) de 50% do valor mínimo do quilômetro rodado (R$1 para R$ 1,50) e da taxa mínima (de R$ 5,31 para R$6), e para garantir mais transparência, foram feitas mudanças na comunicação sobre a sinalização de causas de restrição, ativação e desativação da plataforma", diz o comunicado. 


Já a Rappi, outra empresa do segmento que atua em BH e região metropolitana, disse que oferece centros de atendimentos presenciais aos entregadores, suporte em tempo real, capacitação online e mecanismos de emergência para acidentes ou segurança. 

Conforme o aplicativo, também são disponibilizados seguros para acidentes e casos de invalidez permanente e morte acidental, além de dois planos de saúde. "A empresa realizou ajustes nas tarifas recebidas pelos entregadores independentes. A taxa recebida por pedido era, em média, de R$6,30, em junho de 2021, e atualmente está na faixa de R$8,80, refletindo um aumento de 40% no período", justifica a Rappi. 

A 99 Food respondeu à reportagem afirmando que respeita as manifestações e se mantém aberta a dialogar com entregadores. A plataforma informou que criou um valor adicional variável de combustível que é ajustado a cada novo crescimento no preço dos combustíveis calculado pela ANP.