BRASIL247 – A indústria argentina registrou uma nova sequência de cortes de pessoal, com mais de 600 empregos afetados em apenas três empresas. As demissões ocorreram na Granja Tres Arroyos, na Mirgor e na Unilever, em conflitos com causas distintas, mas que reforçam a fragilidade do trabalho industrial no país.

Segundo o jornal argentino Página 12, em matéria publicada na terça-feira (11), a Granja Tres Arroyos desligou 255 funcionários em Entre Ríos, a Mirgor enviou telegramas a 300 trabalhadores na Terra do Fogo, e a Unilever fechou uma fábrica histórica em Mendoza, deixando 60 pessoas sem emprego.

O caso de maior impacto imediato envolve a Granja Tres Arroyos, que demitiu 255 trabalhadores de sua unidade avícola em Concepción del Uruguay, na província de Entre Ríos. A planta tinha cerca de 700 empregados e já estava sem produzir desde maio.

A empresa alegou queda nas exportações, excesso de oferta no mercado interno, aumento de custos e problemas operacionais. De acordo com a companhia, surtos de gripe aviária registrados desde 2023 levaram a restrições em mercados internacionais, incluindo a China, um dos principais destinos de venda. Com menos exportações, teria havido sobra de produção no mercado argentino, pressionando preços.

As demissões foram feitas com base no artigo 247 da Lei de Contrato de Trabalho, usado em situações de falta ou redução de trabalho não atribuíveis ao empregador. A Federação dos Trabalhadores das Indústrias da Alimentação e o sindicato local rejeitaram esse enquadramento e afirmaram que delegados sindicais estão entre os dispensados.

Os sindicatos também denunciaram atrasos salariais superiores a cinco quinzenas. Representantes dos trabalhadores mantêm conversas com a empresa e com os governos de Entre Ríos, Buenos Aires e Córdoba para tentar preservar a atividade. As entidades cobram que os empregados não sejam tratados como “variável de ajuste” da crise.

Na Terra do Fogo, a Mirgor abriu outro foco de tensão ao desligar 300 funcionários de sua unidade em Río Grande, após uma escalada de conflito com a União Operária Metalúrgica. A empresa afirmou que a decisão não decorre de queda na produção ou no consumo, mas de paralisações que teriam afetado sobretudo a fabricação de autopeças.

O governo da província decretou conciliação obrigatória por 15 dias, suspendendo os desligamentos e determinando que os trabalhadores continuem entrando normalmente na fábrica. A administração local abriu uma negociação para tentar preservar os empregos e evitar o agravamento do conflito.

 A Mirgor sustenta que seu negócio automotivo opera sob demanda das montadoras, sem margem para formação de grandes estoques. A companhia afirmou ainda que não pretende reduzir o quadro de funcionários e que, caso as demissões sejam efetivadas, buscaria contratar outros trabalhadores para manter a produção.

A empresa também associou a crise a medidas de força que, segundo sua versão, extrapolavam a situação da planta, incluindo uma paralisação contra mudanças no processo produtivo de aparelhos de ar-condicionado — item que a Mirgor afirma não fabricar — e outra contra a Lei de Terras. Executivos viajaram à Terra do Fogo para tentar destravar as negociações, sem sucesso.

Em Mendoza, a Unilever adotou uma medida mais definitiva: fechou a fábrica de Corralitos, em Guaymallén, que funcionava havia 62 anos. A unidade produzia vegetais desidratados e, desde 2005, era operada pela multinacional para abastecer itens da marca Knorr. O encerramento deixou 60 trabalhadores sem emprego.

A companhia se comprometeu a pagar indenizações integrais e valores adicionais. O ponto central, porém, é o futuro da produção realizada na província. A Unilever afirmou que continuará vendendo produtos Knorr na Argentina, mas a provisão poderá passar a ser feita por meio de importações.

O fechamento recoloca em debate os efeitos da abertura comercial promovida pelo governo de Javier Milei. Para diferentes segmentos industriais, a concorrência com produtos fabricados em países de custos menores aumenta a pressão sobre empresas que já enfrentam dificuldades no mercado interno.