TIRADENTES.* Um desejo coletivo parecia ecoar no íntimo de quem passou o dia acompanhando a programação do segundo dia da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, neste sábado (24/1): “tomara que não chova à noite”. Talvez a vibração geral tenha contribuído para que não caísse uma gota sequer durante a exibição de "Querido Mundo", novo filme de Miguel Falabella e Hsu Chien, projetado ao ar livre em um enorme telão na praça. 

Quem levou capa ou guarda-chuva acabou deixando os acessórios de lado. Sob o céu limpo e com o friozinho típico das últimas noites, uma multidão lotou o espaço e se acomodou como pôde para acompanhar o longa-metragem em preto e branco estrelado por Malu Galli, Eduardo Moscovis, Marcello Novaes e Danielle Winits.

Na sequência, parte da equipe do filme (Miguel Falabella entre eles) conversou com o público. A trama se debruça sobre a história de Elsa (Malu Galli) e Oswaldo (Eduardo Moscovis), que, cada um à sua maneira, têm as vidas marcadas por infelicidades. 

Elsa é uma mulher submissa ao marido agressivo, Gilberto (Marcello Novaes), vítima constante de violências físicas e verbais, enquanto Oswaldo é um engenheiro fracassado que foi colocado para fora de casa pela mulher (Danielle Winits) após anos de um casamento infeliz. A vida dos dois acaba se cruzando quando ambos vão morar em um prédio inacabado, que desaba após a explosão de um botijão de gás.

Baseado na peça homônima escrita por Falabella em 2008, o filme é um relato sensível sobre como a vida, em seus piores momentos, pode provocar transformações inesperadas. Entre ruínas físicas e emocionais, "Querido Mundo" acompanha o lento processo de reconstrução de seus personagens, que encontram no encontro com o outro uma possibilidade de recomeço.

Com boa parte do filme construída em planos fechados, a atuação, especialmente a de Malu Galli, salta aos olhos, pois é nela que se concentram as sutilezas emocionais da narrativa. Não à toa, a atriz foi premiada como Melhor Atriz no 53º Festival de Cinema de Gramado.

O filme, afinal, coroou de maneira emocionante e delicada o segundo dia da mostra, que teve programação ao longo de todo o sábado. O dia foi aberto com um bate-papo com os curadores Francis Vogner dos Reis e Lorenna Rocha, que apresentaram ao público o conceito e os dados que nortearam a seleção dos filmes.

Na sequência, o público lotou o Cine-Teatro para acompanhar a sessão de abertura do 4º Fórum de Tiradentes, com pessoas também conferindo os debates em um telão do lado de fora da sala. Entre os convidados, estiveram o escritor e teólogo Frei Betto e a deputada federal Jandira Feghali.

Na parte da tarde, munidos de capas e guarda-chuvas, os participantes tomaram as ruas no tradicional Cortejo da Arte, que saiu da Igreja do Rosário e seguiu até a praça, em uma bateria coletiva que reuniu, entre outras alas, o Unidos do Samba Queixinho.

Neste ano, a bateria de Belo Horizonte homenageia três nomes do cinema mineiro: Gabriel Martins, do coletivo Filmes de Plástico; a atriz Rejane Faria; e Raquel Hallak, diretora geral da Universo Produção e coordenadora geral da Mostra de Cinema de Tiradentes, da CineOP e da CineBH.

“Este ano, a homenagem dialoga diretamente com o fato de o grupo estar inserido em uma mostra de cinema. A proposta é celebrar o cinema mineiro e seus trabalhadores e trabalhadoras, o que amplia o significado de participar de um festival internacional de cinema. A presença no evento carrega uma forte dimensão simbólica, ao destacar nomes como Gabriel Martins e Raquel Hallak, referências fundamentais na construção e na difusão do audiovisual em Minas Gerais”, afirmou o fundador do Samba Queixinho, Gustavo Caetano.

A programação contou ainda com uma roda de conversa com Karine Teles, homenageada da mostra, que falou ao público sobre sua trajetória como atriz, roteirista e diretora. Apesar de mais de 20 anos de carreira, Karine reforçou que ainda se sente no início do caminho.

“Tenho muita vontade de fazer suspense, terror, filmes de gênero. Também gostaria de fazer comédia no cinema e filme de época. Eu me sinto ainda muito no começo. Acho que ainda tem muita coisa para fazer”, disse em conversa com a imprensa mais cedo.

O público acompanhou também a roda de conversa dedicada a Júlio Bressane, que celebrou, em tom de homenagem, a trajetória singular de um dos mestres do cinema brasileiro. Mediado pelo professor e pesquisador Pedro Maciel Guimarães, o encontro percorreu décadas de invenção estética, reafirmando a coerência radical de uma obra que sempre se manteve à margem de concessões e modismos. Ao falar de seus filmes, Bressane revisitou referências literárias, artísticas e históricas que atravessam sua filmografia.

Programação continua até dia 31

A programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes segue até o dia 31 de janeiro, com uma agenda intensa que reúne exibições, debates, encontros formativos e atividades de mercado. Ao todo, o evento apresenta 137 filmes, de 23 estados brasileiros, sendo 43 longas-metragens e 93 curtas-metragens, todos em pré-estreia, distribuídos em 21 mostras ou sessões especiais. Neste ano, a mostra se organiza em torno da temática “Soberania Imaginativa”, eixo curatorial que atravessa filmes, debates e atividades formativas. Confira a programação completa.

*A repórter viajou a convite da organização da mostra