Convidada -*por Ana Cristina Curi

Setembro Amarelo nos convida falar sobre prevenção ao suicídio. Mas existe uma dimensão sobre a qual ainda falamos pouco: o sofrimento de quem fica.
Depois de uma morte por auto-extermunio não fica apenas a ausência. Ficam perguntas.

“Como eu não percebi?”
“Por que não me contou?”
“Eu poderia ter feito alguma coisa?”

E a mente começa a voltar às últimas conversas, aos silêncios, às mudanças de comportamento, procurando o momento em que tudo poderia ter sido diferente. Há algo especialmente doloroso nesse movimento: olhamos para o passado sabendo o que aconteceu depois. Aquilo que hoje parece um sinal talvez não tivesse o mesmo significado naquele momento.

É assim que, muitas vezes, o “por quê?” se transforma em “e se?”. E junto dele pode surgir a culpa.

Uma parte importante desse luto é conseguir, aos poucos, separar amor de responsabilidade. Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, não alcançar toda a dimensão da dor que essa pessoa vivia.

Amor não nos torna onipotentes.

Também é importante lembrar que uma pessoa é infinitamente maior do que a maneira como morreu. Houve uma vida antes daquele último momento. Houve histórias, vínculos, alegrias, conflitos, sonhos e amor.

Elaborar esse luto não significa esquecer. Talvez signifique conseguir, com o tempo, lembrar novamente da pessoa — e não apenas de sua morte.
Neste Setembro Amarelo, precisamos continuar falando sobre prevenção. Mas precisamos também perguntar:

Quem está cuidando de quem ficou?

Porque continuar vivendo não significa abandonar quem morreu. Significa permitir que aquele vínculo encontre uma nova forma de existir dentro de nós.

 

*Psicóloga, formada pela PUC-MG/1984. Especialista em Terapia Sistêmica e Transpessoal. Membro do Colégio Internacional dos Terapeutas. Conheça seu site.