Amauri Meireles (*)

Penso que conhecer o saudoso futebol-arte, o cinema mágico e encantador e as belas e inesquecíveis canções de outrora refinou a minha sensibilidade e me deu uma bagagem humana única, especialmente hoje, quando sentimos que essa preciosidade artística e o brilho de antigamente estão se perdendo.

Tenho a convicção de que não possuo o conhecimento tecnológico adquirido pela atualgeração, assim como, acredito, ela nãotem a experiência que acumulei nestes mais de 80anos. Se os jovens se destacam pelo vasto e profundo domínio da tecnologia, que se expande em incrível velocidade, a minha geração se apoia na riqueza de uma vivênciamoldada pela busca da beleza, da ética e do valor das relações reais. Essa mesma experiência me permite enxergar os ciclos da nossa história.

Na arena das relações internacionais, nosso país já foi representado por gigantes como oVisconde do Rio Branco, o Barão do Rio Branco, Bertha Lutz, Rui Barbosa e Oswaldo Aranha, os quais se tornaram referências mundiais de altíssimo nível. Da mesma forma, na política interna, fomos guiados por expoentes impolutos do porte de Petrônio Portela, Milton Campos, Antonieta de Barros e Afonso Arinos, estadistas cuja única bússola era o interesse público e a soberania nacional. Que contraste doloroso com os dias de hoje, em que a atual geração foi jogada em um ponto crítico: a triste tarefa de escolher, nas urnas, apenas o menos ruim.

Essa crise da escolha não nasceu por acaso. Ela é o reflexo de uma evolução preocupante no comportamento eleitoral do país. No passado, enfrentávamos o voto de cabresto, o voto comandado pela força do coronelismo que impedia a liberdade de escolha. Hoje, a armadilha mudou de forma e de ambiente.

Quanto à forma, assistimos a um fenômeno em que o voto muitas vezes decorre da dependência de auxílios estatais que funcionam como pseudobenefícios. Ao serem distribuídos recursos para necessitados, de fato, mas, em paralelo, para grande número de pessoas hígidas, desavergonhadas, sem exigir contrapartidas claras de qualificação, trabalho ou desenvolvimento pessoal, esses mecanismos ferem a dignidade humana, trocando a emancipação do cidadão por uma perigosa dependência que prende o eleitor ao governo de turno.

Quanto ao ambiente, destaca-se o Congresso, que, usurpando competência do Executivo,vem “inovando” (para si, claro) com as abomináveis emendas parlamentares, as quais consomem considerável fatia do orçamento e se prestam, insidiosamente, a garantir votos futuros. E me arrisco a dizer que, lamentavelmente, esmagadora maioria de brasileiros nem sabe o que é isso, e esse desconhecimento impede a indignação.

Diante desse cenário desolador, surge o grande dilema: o que sugerir às novas geraçõespara que o erro seja o menor possível? Entendo que o caminho para mitigar os equívocos na cabine de votação exige resgatar critérios rigorosos de avaliação, tais como:

- Pesquisar o passado dos candidatos fora do período eleitoral, analisando se eles possuem uma trajetória de serviços reais prestados ou se surgiram apenas na esteira do marketing digital e de promessas vazias;

- Apoiar e escolher lideranças que defendam programas sociais focados na porta de saída, pois a dignidade se reconquista quando o auxílio temporário é acompanhado de educação, emprego e independência, e não de submissão;

- Selecionar quem, de fato, tem competência para atacar os grandes problemas que afligem a sociedade brasileira: saúde, educação e, principalmente, a insegurança pública;

- Exigir que os homens públicos tenham capacidade intelectual e preparo para os cargos que pretendem ocupar, espelhando-se nos exemplos de integridade e competência que o Brasil já teve no passado;

- Identificar aquele que, aproximando-se do caráter de estadista (que há muito tempo não temos), tenha coragem de denunciar e acabar com o moderno voto de cabresto, que hoje tem o nome de emenda parlamentar ou de bolsa-preguiça, conforme a fonte.

- Por fim, lembrar aos mais novos que a política não deve ser um espetáculo de curtidas em redes sociais, mas sim a busca honesta pelo bem comum e pelo desenvolvimento nacional através do voto mais que responsável. Refiro-me ao voto sadio, que se opõe diretamente ao voto "doente", aquele comprado, chantageado, fanático ou gerado pela dependência estatal.

Reduzir o erro nas escolhas de hoje é compreender que a tecnologia dos jovens e a sabedoria dos mais velhos precisam caminhar juntas. Só assim o voto deixará de ser passaporte de acesso a incompetentes, oportunistas, egocêntricos, demagogos, carreiristas e voltará a ser um instrumento de soberania e grandeza para o nosso país.

 

(*) Coronel Veterano da Polícia Militar de Minas Gerais