Casa vira escola para ensinar adultos a ler e a escrever


Enviado em 20 de maio de 2018 às 16:15:51


Quadro improvisado é usado pela professora | Foto: João Godinho

 

Professora usa as horas vagas há 18 anos para mudar a vida de adultos que sonham com alfabetização

 

A escola fica nos fundos de uma casa, no andar de cima, e o acesso é por um corredor estreito e uma escada em espiral. A sala de aula é na cozinha. Uma mesa acomoda quatro alunos, e outra, de plástico, mais dois. São pessoas com idades entre 43 e 64 anos que estão descobrindo um mundo novo por meio do conhecimento graças à professora Carla Cristina de Oliveira, 43. Nas horas vagas, ela abre as portas de sua residência, em Ibirité, na região metropolitana de Belo Horizonte, para ensinar adultos a lerem e a escreverem, um trabalho que começou há 18 anos, pelo simples prazer dela de ensinar e de fazer o bem ao próximo.

Por conta da iniciativa, Carla Cristina é a vencedora da categoria cidadania do Prêmio Bom Exemplo 2018, promovido pelo jornal O TEMPO, pela Globo Minas, pela Fundação Dom Cabral e pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). 

O trabalho de Carla Cristina começou com um tio dela, que dependia de uma carteira de motorista para conseguir um emprego, mas que era analfabeto. “Foi quando fiz a proposta a ele para que pudesse aprender a ler. Foi um trabalho lento, mas, com dois anos e um pouquinho, ele conseguia ter essa autonomia da leitura e da escrita. Hoje, trabalha com caminhão na Ceasa (Centrais de Abastecimento de Minas Gerais). Faz o que gosta, e isso trouxe um retorno muito grande para a vida dele e da família”, conta a professora.

Depois disso, outras pessoas ficaram sabendo e procuraram Carla Cristina querendo ser alfabetizadas também. “Sou muito apaixonada pela alfabetização, principalmente dessa forma, de ajudar pessoas de mais idade que não tiveram essa oportunidade enquanto crianças”, relata, orgulhosa, a professora.

Apoio. Carla Cristina trabalha em duas escolas de ensino fundamental durante o dia, em Ibirité e em Sarzedo, e conta com o apoio da família para dar aulas à noite em casa. Para ela, não existe cansaço. Algumas vezes, a educadora fica presa no trânsito voltando do trabalho, e, como alguns alunos vão direto do serviço, a filha dela, Maria Clara, de 11 anos, estudante do sexto ano do fundamental, recebe os alunos e adianta as lições. Já a mãe de Carla Cristina se encarrega de preparar o lanche para todos.

Na quarta-feira passada, uma das tarefas dos alunos foi ler uma frase escrita na lousa: “Que cada amanhecer lhe traga a certeza de que Deus está presente em cada momento de sua vida”. A mensagem foi enviada a Carla Cristina dias antes, em um cartão de aniversário, escrita por uma ex-aluna dela que já domina as letras. Na terça-feira, as estudantes são três senhoras, a mais velha de 74 anos.

Emoção para todos a cada descoberta durante as aulas

A professora Carla Cristina de Oliveira se emociona com cada descoberta dos alunos e não consegue conter as lágrimas. “A gente vive a alegria junto com eles, com cada descoberta de letras, sílabas e palavras. E, quando chega às frases, é muita emoção”, conta a educadora. “A autoestima deles fica elevada, e isso é um retorno muito grande”, completa.

Alguns alunos demoram até quatro anos para serem alfabetizados. “O trabalho é lento e gradual”, lembra Carla Cristina. Nesses 18 anos, cerca de 25 adultos passaram pela casa dela. “Eles são supercarinhosos comigo. É uma coisa que me emociona esse agradecimento tão grande. Digo que sempre que a gente puder ser luz na vida de alguém, a gente deve ser, porque isso traz um retorno muito grande e nos faz sermos pessoas melhores. São sonhos que eles buscam, coisas tão pequenas para a gente, que tem o conhecimento da leitura e da escrita, mas que, para eles, é um sonho”, diz.

Resultado. Aos poucos, a agricultora Maria Helena Fernandes, 50, vem conquistando o sonho de ler a Bíblia. “Quando alguém me indicou a Carla, minha alegria foi tão grande que fiquei sem acreditar. Ainda não consigo ler tudo, só algumas palavras, mas logo vou conseguir”, relata. Valdemir Monteiro, 61, que trabalha com serviços gerais, também está feliz por saber ler algumas palavras na agência bancária sem precisar de ajuda. “É muita alegria.


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