Sociedade doente

Por Amauri Meireles (*)


Enviado em 05 de dezembro de 2017 às 11:39:05


 

 

Inúmeras ocorrências, com o DNA da violência, têm marcado, com sangue e lágrimas, a vida em várias comunidades brasileiras: nas casas, nas escolas, nos estádios, no comércio, nos bares, nas vias públicas. Citam-se, aqui, minimamente, o homicídio, o roubo, o latrocínio e o estupro. E, como sói acontecer, em meio ao aumento de mortes, assiste-se ao ciclo da dor, do lamento, da indignação, do temor, do clamor, do placebo político, do sinistro esquecimento, até surgirem novos episódios violentos.

Chama atenção o fato de esses acontecimentos estarem com intervalo cada vez menor, isto é, a periodicidade desses gravíssimos e lamentáveis episódios está próxima de se transformar em notícia diária. Isso, na escala social, ocorre, com mais freqüência, nas classes sociais mais baixas, ensejando a se visualizar um triângulo, na medida em que galgamos as demais classes até a chamada dominante, burguesia. Porém, se invertermos o triângulo, vamos encontrar, nas camadas mais altas, outros tipos de crimes violentos como, por exemplo, o tráfico de drogas, dirigido por bandidos de colarinho branco e do ar refrigerado e praticados por elementos cooptados nas camadas inferiores; temos, ainda, a corrupção, cujas marcas são a propina e o escárnio. Crimes que poderiam ter um enquadramento mais rigoroso, pois, sob certo aspecto especulativo, deveriam ser considerados mais graves que um homicídio, em razão de poder ser assemelhado a um latrocínio (roubo seguido de morte) múltiplo. Assim, seria considerado um tipo semelhante ao latrocida, o indivíduo que desvia verba de um hospital, para se locupletar, e, em conseqüência, pacientes vêm a óbito; ou o outro que se apropria de verba para recuperar estradas e, porque a obra não é realizada ou o é à meia-boca, há acidentes fatais no trecho; e mais outro que embolsa recursos destinados à aplicação na merenda e no transporte escolar, vitimando milhares de crianças por cansaço, desnutrição e morte. E por aí vai!..    

Evidentemente, em uma sociedade sadia, esses fatos são inaceitáveis. Em países sérios, debates já estariam em andamento, objetivando identificação de causas, das origens dessa violência generalizada e, simultaneamente, pesquisas visando à definição de remédios para essa grave doença social. Entretanto, paradoxalmente, em nosso país já se conhecem as causas e os remédios, mas, em razão de a banalização sobrepor-se à indignação, nenhuma providência mais técnica, inicialmente corretiva e, depois, proativa, é tomada. Uma intrigante inércia impera em nossa sociedade.

Por que, variando o tipo, temos elevados números de crimes violentos em todas as classes sociais? Por várias razões. Inicialmente, constata-se que o conceito de sociedade ou não é conhecido ou não é respeitado pela maioria da população brasileira, onde, minimamente, interesses individuais sobrepujam os coletivos. Nota-se que seus pilares, ordem e caráter, estão bastante corroídos, sendo possível identificar-se, em vários setores sociais, econômicos e, principalmente, políticos, um elevadíssimo grau de desorganização na estrutura e no funcionamento do grupo social. A par disso, há um elenco de valores que não estão sendo respeitados e de um rol de regras fundamentais que não estão sendo obedecidas.

Significa dizer que muito pouco, do estabelecido no pacto social, está sendo cumprido, ou, no popular, nosso país está uma bagunça generalizada e não temos, e nem se vislumbram no horizonte, lideranças capazes de por “ordem na casa”. Isso! Como faz falta um elenco de líderes!.. Principalmente em nossa sociedade, onde, às vezes, surge um “salvador da pátria” que, logo, logo se descobre ter pés de barro! O elenco é muito importante porque a questão do líder único é extremamente perigosa e contraditória.  

Além do mais, uma sociedade só se faz madura se não for tutelada. É o caso dos países nórdicos, principalmente depois da Segunda Guerra, que buscaram um sistema de bem-estar social baseado na democracia e investimento pesado na educação.

Outra deficiência diz respeito à cidadania. É uma palavra muito usada, porém, seu conceito é pouco entendido e, via de conseqüência, ela é, também, menos praticada ainda. O caráter de um grupo social é resultante dos caracteres de seus integrantes. Por extensão, as premissas que embasam um grupo social têm que ser sólidas, o que não vem ocorrendo com o grupo brasileiro, onde se identifica um perigoso percentual de comportamentos antissociais (sociopatia), em adultos, e transtornos de conduta, em adolescentes e crianças).

Enfim, todos os desajustes, todas as mazelas, todas as contradições presentes no dia a dia da sociedade brasileira (ou seria da antissociedade?) têm origem na deficiência de percepção ou na insuficiência da prática, seja do civismo, seja da civilidade. Para corrigi-los, são necessárias, basicamente, duas ações: estímulo à força do exemplo, que estimula o aprendizado, e um esforço institucional. Sim, somente um esforço sinérgico, coordenado pelo Estado, envolvendo, principalmente, a família, a escola, a igreja, associações, empresas, clubes de serviço permitirá “virar esse jogo”. Não se propugna por proselitismos nem pela antítese do amigo-inimigo, que sempre embasou o totalitarismo. Fundamentalmente, esse empreendimento deve ser realizado atendendo a duas premissas básicas: um vigoroso trabalho de orientação e de formação e, em paralelo, um rigoroso sistema de punição, ações que se refletirão, respectivamente, na convivência harmoniosa e pacífica e, também, na sensação de impunidade. 

 

 (*) Coronel Reformado da PMMG

 Ex-Comandante da Região Metropolitana de BH 


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