É o fim da era dos banqueiros mineiros?


Enviado em 12 de julho de 2012 às 09:16:05


 

É o fim da era dos banqueiros mineiros?
Foto: Edição/247

ASSOCIAÇÃO ENTRE BMG E ITAÚ MOSTRA INTERESSE DESPERTADO PELOS BANCOS DE MINAS, TRADIÇÃO QUE VEM DESDE O INÍCIO DO SÉCULO PASSADO; NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO, INSTITUIÇÕES ATRAÍRAM A COBIÇA DE GRUPOS INTERNACIONAIS E AMEAÇAM A FIGURA DO BANQUEIRO MINEIRO. MAS ELE RESISTE

12 de Julho de 2012 às 08:49

Heberth Xavier

Fonte:247 - Minas Gerais é a terra do pão de queijo, das serestas e dos banqueiros. O pão de queijo continua o melhor do mundo; as serestas saíram de moda, mas o seresteiro mineiro mantém-se insuperável; os banqueiros, a cada dia, pertencem mais aos livros de história, embora sejam resistentes.

A associação entre o BMG e o Itaú, anunciada nesta terça-feira, é um dos epilógos de um desenlace que já dura alguns anos. Até os anos 1930 e 1940, Minas era a sede de inúmeros bancos brasileiros. A partir dos anos 1970, num processo que ganhou intensidade a partir dos anos 1990, as famosas marcas bancárias do estado, nas mãos de tradicionais famílias familias mineiras, foram gradativamente passando para o controle de grandes corporações, a maioria estrangeira.

O Itaú Unibanco e o BMG criaram uma nova empresa, o Banco Itaú BMG Consignado, com capital social inicial de R$ 1 bilhão. A nova instituição, com foco nos empréstimos pagos com desconto na folha de pagamento (o forte do BMG), tem participação do Itaú em 70% do capital; o BMG participa com os 30% restantes. O Itaú Unibanco não comprou o controle do BMG, mas na prática levou a operação do banco mineiro. O controle ficou preservado nas mãos de Flávio Pentagna Guimarães, fundador da instituição.

E a família Pentagna Guimarães, é claro, continua poderosíssima no estado e no país. Uma das mais tradicionais e, provavelmente, a mais rica de Belo Horizonte, continuará dona de inúmeros outros negócios, em setores diversos - e continuarão também a ter influência nos rumos do Itaú BMG Consignado.

Mas a joint-venture é mais um passo em direção ao fim do reinado dos banqueiros mineiros. Uma história antiga que se iniciou ainda nos anos 1920 e envolveu nomes famosos da economia e da política brasileiras, como os Magalhães Pinto, os Faria e os Moreira Salles.

 

 

Do Lavoura ao Real

Em 1925, Clemente Faria e José Bernardino Alves Junior criaram o Banco da Lavoura de Minas Gerais, presidido pelo segundo durante quase 40 anos. No início dos anos 1950, Clemente morreu e, de um acordo com os demais acionistas vivos, surgiram dois bancos, o Bandeirante e o Real.

O belo-horizontino Aloísio de Faria, que fundou o Banco Real, é ainda hoje um dos homens mais ricos do Brasil - o oitavo entre os milionários brasileiros, segundo o ranking da Forbes. Filho de Clemente, transformou uma instituição de porte médio (o Lavoura) numa das maiores do país. A relação do Real com os mineiros era tão forte que o banco chegou a entrar no negócio de televisão, com a TV regional Vila Rica - mais tarde vendida para o Grupo Bandeirantes.

No início da última década do século passado, o Real era uma das marcas mais consolidadas do setor bancário brasileiro. Em 1998, Aloísio de Faria vendeu a instituição financeira para para o holandês ABN Amro. Em 2007, o ABN Amro Real passou às mãos do espanhol Santander. Faria, por sua vez, aplicou a fortuna em empresas como a rede de hotéis Transamérica, a Agropalma, a C&C Casa e Construção e fundou o Grupo Alfa.

Da UDN ao Mineirão

Talvez nenhum dentre os famosos banqueiros de Minas Gerais teve e usufruiu tanto poder quanto Magalhães Pinto. Conservador, um dos fundadores da UDN, José de Magalhães Pinto criou o Banco Nacional ainda em 1944, com apenas 35 anos. Paralelamente, Magalhães Pinto crescia politicamente: foi governador de Minas Gerais - o estádio Mineirão recebeu o seu nome -, chefe civil do golpe militar de 1964, chanceler, além de ter exercito vários mandatos parlamentares. Em 1986, sofreu dois derrames cerebrais, num momento em que - hoje já se sabe - o patrimônio do Nacional já se despedaçava. Ainda assim, o Nacional teria seu auge de fama no país ao ser o patrocinador do piloto Ayrton Senna, ídolo em todo o país.

A quebra definitiva do Nacional viria dez anos depois, em 1996, quando foi vendido para o Unibanco. Seu estado financeiro levou o governo federal (gestão de Fernando Henrique Cardoso) a criar o Proer, com o intuito de evitar risco sistêmico. Os irmãos Fernando Catão, Marcos e Eduardo Magalhães Pinto, herdeiros do fundador, foram acusados de mentir os números enviados ao Banco Central. O Nacional, que no auge chegou a figurar entre os cinco maiores bancos privados do país, deixou um rombo de R$ 10  bilhões.

De Poços ao cinema

O Unibanco, incorporador do Nacional, também é uma cria mineira. Em 1924, o comerciante João Moreira Salles criou, em Poços de Caldas (sul de Minas) a Casa Bancária Moreira Salles. Seu filho mais velho, Walter, assumiria o banco dez aos depois e ficaria famoso como um dos maiores banqueiros e empresários do século 20 no Brasil. Morto há 11 anos, Walter Moreira Salles chegou a ser ministro da Fazenda do governo João Goulart, mas ficou conhecido mesmo como embaixador brasileiro em Washington, nos díficeis anos 1950 da guerra fria. Naqueles anos, Moreira Salles ficaria amigo de Juscelino Kubitschek, de quem recebia muitos elogios pelo “espírito conciliador” que ajudou na negociação da dívida externa brasileira.

Era um banqueiro que mesmo os inimigos reconheciam ter um charme especial. Educado, bem humorado e discreto, foi amigo de políticos das mais diversas correntes no país - diz-se que foi amigo também de do roqueiro Mick Jagger e da atriz Greta Garbo. Hoje, seu nome é mais lembrado pelos jovens pelo Instituto Moreira Salles, de fomento à cultura. Dois de seus filhos ficaram famosos no cinema: o documentarista João Moreira e o cineasta Walter Salles Júnior.

Das fazendas à nova capital

Outros nomes são menos conhecidos, mas igualmente fizeram a fama de Minas como terra de banqueiros. João Nascimento Pires, por exemplo, criou no início da década de 1960 o Banco Mineiro do Oeste na pequena Visconde do Rio Branco, Zona da Mata mineira. Já em Belo Horizonte cinco anos depois, cresceu e também juntou-se a atividade culturais, em especial o cinema - o Mineiro do Oeste ajudou na produção de filmes de Júlio Bressane e Paulo César Saraceni. Em 1970, com o aumento da concentração bancária no país, foi absorvido pelo Bradesco.

Em 1955, a família Araújo, de Oswaldo e Vicente, levaram o Banco Mercantil de Minas Gerais para Belo Horizonte. Ele havia sido criado na década de 1940 na cidade de Curvelo, no centro-norte mineiro. Continua na ativa, sob o nome de Mercantil do Brasil, com agências espalhadas por todo o país.

O Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais foi criado em 1923 por um grupo de comerciantes e industriais de Belo Horizonte. Chegou a ser a maior instituição financeira privada do país na década de 1940. A família Guimarães, fundadora do banco, fez fortuna em fazendas. A partir do fim do século 19 e chegando ao século seguinte, os Guimarães entraram no ramo têxtil e siderúrgico - de uma siderúrgica da família em Sabará sairia a Belgo-Mineira.

Essa pequena história explica um pouco a vocação, por assim dizer, do empreendedor mineiro para os bancos, em especial em Belo Horizonte. O capital em Minas vinha basicamente de duas fontes: o setor rural e o estado. Fundada em 1897, BH era uma das mais novas e promissoras capitais do país no nascente século 20. Natural, portanto, que atraísse tantos bancos, usados como forma de acumulação de capital obtido no interior.

Não é à toa que, além dos citados, o estado sediou outras instituições financeiras de porte, como o Progresso (Sandoval Morais), o Agrimisa (Teophilo de Azeredo Santos) e a Economisa (Nilton Veloso). Como os barões da indústria paulista, a globalização tragou vários desses negócios, incorporados por grupos nacionais maiores ou estrangeiros.

Mas quem faz a fama deita na cama. A reputação de terra de banqueiros continua. Não tão forte quanto a do pão de queijo, mas continua...


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