Documentário mostra que Minas Gerais também tem bossa


Enviado em 14 de junho de 2011 às 00:02:59


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Fonte: Hoje em Dia - Viviane Moreno

O berço da Bossa Nova é o Rio de Janeiro, ninguém discute. Mas os mineiros também deram sua contribuição ao movimento musical que nasceu no final dos anos 1950 a partir do jeito muito próprio de tocar violão e cantar do baiano João Gilberto (que, a propósito, completou 80 anos na última sexta-feira). Essa história será contada no documentário “Bossa Nossa”, dirigido por Ernane Alves, da Portraits Factory Filmes, previsto para ficar pronto em setembro.


A ideia foi da jornalista Ana Paula Valois, que fez toda a pesquisa e assumiu a produção e assistência de direção do longa-metragem. Ela conta que, em princípio, seria um curta-metragem sobre o compositor Pacífico Mascarenhas, mas o projeto acabou crescendo para homenagear também Roberto Guimarães, único mineiro gravado por João Gilberto (é dele “Amor Certinho”, do LP “O Amor, o Sorriso e a Flor”, 1960), e o produtor musical, cantor e compositor Bob Tostes, que também tem muitas histórias para contar dos tempos em que a amizade dele com o capixaba (radicado no Rio) Roberto Menescal acabou estabelecendo um intercâmbio de músicos mineiros e cariocas.


O filme começou de forma independente em 2008. Agora, o projeto foi inscrito na Lei do Audiovisual e três empresas já teriam sinalizado interesse em patrociná-lo. Se tudo acontecer como planejado, estará montado no começo de setembro, pronto para participar de festivais e mostras de cinema. “Faltam alguns detalhes com o Pacífico, porque a história dele é muito rica. Também vamos reconstituir as serenatas com ele e os amigos da Turma da Savassi (para quem não sabe, Pacífico e companhia colocavam um piano num caminhão e faziam serenatas nas ruas da Savassi). Vai ter uma ficção muito sutil”, conta Ana Paula, que foi apresentada à Bossa Nova, inclusive ao seu “braço” mineiro, pelo pai, quando ainda era criança.


“Temos 13 horas de gravação”, conta Ana Paula, lembrando que, além dos depoimentos dos três personagens centrais, eles gravaram os bastidores e o show de lançamento do último CD de Bob Tostes, em maio, no Museu de Arte da Pampulha. Lá garantiram a participação de Roberto Menescal no documentário.


Também pretendem pegar depoimento de nomes como Milton Nascimento, que gravou música de Pacífico Mascarenhas no começo da carreira; de Marina Machado, que cantou Roberto Guimarães; e de Fernanda Takai, que contou com Bob Tostes para levar adiante o projeto “Onde Brilhem os Olhos Seus” (2007), com músicas do repertório de Nara Leão.


Filme não traz “cabeças falantes”


As filmagens de “Bossa Nossa” serão retomadas em julho. “O que entra agora é para ilustrar, engrandecer o projeto. Vai ter pequenas esquetes para ilustrar uma música ou outra, não é reconstituição de época, não vamos roteirizar música, mas faremos cenas interessantes para ilustrar as músicas. Nunca trabalho pensando em mercado – faço minha arte, o mercado é consequência –, mas venho da ficção, do teatro, então propus inserir algumas cenas para enriquecer o filme e atrair o público jovem”, diz Ernane Alves.


“Foge de documentário jornalístico, é uma filmagem muito criativa, não são cabeças falantes, tem muita imagem de corte. Fizemos um encontro belíssimo dos três no bar Redentor, na Savassi, discutindo a bossa nova, só aí foram sete horas de imagens. E gravamos nas casas deles, mostrando intimidade. Tem cenas geniais, como um dueto do Pacífico com o neto, nada planejado”, antecipa o diretor.


O diretor aposta que muita gente vai se surpreender ao ouvir os depoimentos. “Tudo causa estranheza no Brasil porque, infelizmente, brasileiro conhece pouco o Brasil. Eu mesmo conhecia pouco esse movimento, mais Tom Jobim e João Gilberto, e, ao longo da filmagem, fiquei conhecendo muita coisa. O Pacífico me chamou atenção pela simplicidade, pela verdade como canta Belo Horizonte, Minas Gerais. Também fiquei surpreso como esse ritmo é difundido no mundo inteiro, como grandes músicos do pop e do rock nacional e internacional beberam da Bossa Nova”, diz Ernane.


Mas se o diretor se surpree<CW10>ndeu durante o processo, a produtora Ana Paula Valois era uma grande conhecedora da causa. “Meu pai ouvia muito bossa nova e me apresentou (ao estilo) muito cedo, primeiro a turma do Rio e depois me mostrou que tinha bossa nova aqui também”, conta Ana Paula. “O filme está muito bonito, muito emotivo, com coisas muito delicadas, vamos trazer um pouco daquela época, com enquadramentos bacanas, não está careta. A bossa é carioca, sem dúvida, a gente não nega hora nenhuma isso, mas existe esse braço mineiro. Vai ser uma surpresa, principalmente para a nova geração”, garante.


Ernane conta que falou recentemente com Roberto Menescal sobre o medo de causar estranheza no público ao relacionar a Bossa Nova com Minas Gerais, mas foi incentivado a levar o projeto adiante. “Ele disse: houve grandes movimentos da Bossa Nova em São Paulo e outros estados, mas Minas Gerais foi o que mais se envolveu. Ele elogiou muito os três (homenageados do filme), especialmente o Bob, de quem é amigo há 50 anos”, conta.


“Bossa Nossa” é um dos projetos


“Bossa Nossa” não é o único projeto do ator, diretor cinematográfico e artista plástico Ernane Alves em andamento, pela Portraits Factory Filmes. Natural de Pedro Leopoldo, o ator e cineasta de 34 anos.


Seu primeiro longa de documentário, “Cinema Vale Sonhos”, passou por alguns festivais e mostras de cinema ano passado e estreia em julho/agosto em algumas capitais, incluindo Belo Horizonte.


Paralelamente, Ernane está montando “Clube das Ilusões”, que ele rodou em outubro/novembro do ano passado, em Pedro Leopoldo. O longa-metragem de ficção é o segundo filme da Trilogia das Relações, que começou com “Parejas”, gravado em 2008/09 em Buenos Aires - ele dirige e atua no filme, gravado em espanhol e inglês. “Parejas” estreia no circuito comercial em fevereiro/2012 e “Clube das Ilusões”, em abril, depois de percorrer festivais.


“Clarice”, que vai ser rodado em meados de 2012, vai fechar a trilogia. “Eles são nacionais, mesmo ‘Parejas’ que foi gravado em Buenos Aires, mas mostro outra cara do Brasil, fujo de qualquer coisa que flerte com faroeste de favela, mostro a realidade, mas coisas bonitas, que me agradam”.


“Bossa Nossa” é o primeiro com Lei de Incentivo, “embora o que filmei até agora tenha sido com recursos próprios”. Também integram seu currículo o documentário “Causos da Melhor Idade - de Cachoeira das Três Moças a Pedro Leopoldo”, que estreia no segundo semestre deste ano, e a Trilogia do Tédio composta pelos curtas-metragens: “Cinco Minutos do Meu Pensamento” (2005), “Crunch” (2008) e “Clash” (2009).

 

 

 


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