Pedro Luís e o Melodia


Enviado em 04 de janeiro de 2019 às 18:41:32


 “Se você isola um verso das letras do Melodia, elas podem ser título de livro, disco, filme. Nós estamos precisando desse tipo de poesia neste momento tão complexo.”

 

Cantor carioca lança 'Vale Quanto Pesa', álbum em que homenageia o autor de 'Pérola Negra'

 
 

Lucinha Araújo, mãe de Cazuza (1958-1990), disse certa vez que, para ela, apenas uma pessoa foi capaz de cantar melhor uma música de seu filho do que ele próprio. No caso, o elogio era direcionado a Luiz Melodia (1951-2017), que regravou “Codinome Beija-Flor” (de Cazuza e Frejat) para a trilha sonora da novela “O Dono do Mundo”, exibida na Rede Globo em 1991, um ano após a morte do poeta exagerado.

Aos 13 anos, havia outro garoto carioca impressionado com a voz de Melodia. “Quando ouvi o disco pela primeira vez, foi um escândalo de sensações. Lembro de pensar comigo: como assim? O cara escreve essas músicas e ainda canta desse jeito?”. A fala é de Pedro Luís, 58, e o LP referido é “Pérola Negra” (1973), o primeiro de Melodia. Agora, ele junta a fome com a vontade de comer no álbum “Vale Quanto Pesa: Pérolas de Luiz Melodia”.

A homenagem começou com o show “Pérolas Negras”, que estreou em abril do ano passado. Embora o mote inicial fosse o disco inaugural do cantor, Pedro Luís resolveu não se ater a ele no registro em estúdio. Selecionou oito faixas de “Pérola Negra” e agregou outros sucessos da carreira de Melodia, inclusive como intérprete, como no caso de “A Voz do Morro”, samba de Zé Kéti gravado pelo homenageado em 1979, para a trilha da novela “Feijão Maravilha”.

Ao todo, o CD contempla 13 das 19 canções que compunham o show. Porém, Pedro Luís fez questão de eternizar em sua voz todas elas. “As bases estão gravadas, e podemos lançar essas que ficaram fora alguma hora. Procurei não reproduzir um disco já feito, mas, ao reverenciar, criar texturas novas, originais, através de outros arranjos, com muito respeito, mas sem soar como se fosse um cover”, explica. O título do disco tampouco veio de pronto e teve os seus caminhos singulares.

Inicialmente, a intenção era batizá-lo de “Devo de Ir”, um dos versos da canção que Pedro Luís elege como a sua favorita do repertório: “Fadas”, que, no disco, se une a “Passarinho Viu”, parceria de Melodia com sua esposa, Jane Reis, lançada em 1980. “Eu acho ‘Fadas’ uma canção definitiva. Ela sugere esse movimento de que devemos seguir, porque o Melodia nos deixou fisicamente, mas também deixou uma obra maravilhosa. Ou seja, é o ‘deixou’ nos dois sentidos, do que se vai e do que permanece”, diz Pedro Luís.

Encanto

A escolha de “Vale Quanto Pesa” se ancorou no mesmo tipo de encantamento com o sentido dado por Melodia às palavras. A exemplo do clássico romance “A Insustentável Leveza do Ser” (1984), do tcheco Milan Kundera, Pedro Luís percebeu ali a contradição buscada por Melodia em seu fazer artístico. “Essa música une a leveza ao peso. O peso das melodias ‘funkeadas’, meio reggae, e, ao mesmo tempo, essa leveza das pipas, ventos e cores, essa luminosidade que aparece no discurso dele”, constata.

Essa imagem musical serviu de inspiração para a capa do trabalho. Ao contrário do espetáculo, em que prevaleciam tons graves e uma baixa luminosidade, o lançamento em disco apresenta Pedro Luís cercado por pipas das mais variadas cores e escorado em uma bicicleta, chamada em alguns lugares do Brasil de “magrela”, algo que pode ser uma referência enviesada a “Magrelinha”, um dos títulos mais conhecidos da obra de Melodia presente no álbum.

“O Melodia era do Estácio, e eu, da Tijuca, são bairros próximos no Rio; então fui buscar essas memórias mais precoces, e, com a (fotógrafa) Nana Moraes e o (cenógrafo) Sergio Marimba, decidimos seguir esse caminho lúdico”, observa. Nesse processo, Pedro Luís teve as ajudas fundamentais da jornalista Bianca Ramoneda, na elaboração do espetáculo, e da viúva de Melodia.

“A Bianca é minha parceira de muitos projetos e colheu várias histórias com a Jane. Dessa maneira compreendemos a importância de se manter essa elegância do Melodia, ele tinha uma coisa de nobreza, de linho”, afirma Pedro Luís, que, entre outras, dá voz a “Juventude Transviada”, “Congênito” e “Objeto H”. “Melodia tinha imagens poéticas muito particulares, nem sempre fáceis de entender. Ele vai do lirismo para a contundência num instante”, conclui. 

Os encontros com Luiz e sua melodia

A primeira em vez que Pedro Luís se deparou com a obra de Luiz Melodia foi na voz de Gal Costa, em 1972, quando a cantora revelou ao Brasil o talento do autor de “Pérola Negra”. No mesmo ano, ouviu Maria Bethânia cantar “Estácio, Holly Estácio”.

“Um cara revelado por duas referências da nossa MPB é único”, diz Pedro Luís. “Ele não se deixava amarrar, tudo o interessava, rock, jazz, samba, reggae”, enumera. No palco, os dois se encontraram uma vez, em 2008, num show em Paris. O último contato foi por telefone, pouco antes de Melodia falecer. “Falei que ia fazer um show sobre o ‘Pérola Negra’. Ele disse: ‘O que você está esperando?’”.


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